Um jogo sem prolongamento

Auspiciosas saudações aos mui dignos Tomateiros que me honram com a vossa seleta leitura. Ó representantes máximos do excelso “Solanum Lycopersicum” fico deveras lisonjeado pelo convite de, por breves instantes, ser alvo de vossa atenção.

O tema que irei, em rápidas pinceladas, desenvolver é algo ao mesmo tempo concreto e abstrato que não se aproxima, é verdade, dos herméticos pensamentos do grande filósofo pós-futebolístico J.J.

O tema é o tempo, de forma mais detalhada de como falamos do tempo. Ouço expressões que simplesmente desafiam a minha combalida lógica. Gostaria de reparti-las com esses frutos advindos da América (os tomates, é claro).

Em primeiro lugar, causa-me surpresa (e um pouco de irritação) quando em minha vida profissional ocorre  o seguinte diálogo:

“Qual é a idade do senhor?”

“Vou fazer 58 anos.”

Tenho que controlar-me para não dizer: “O senhor não tem certeza nenhuma que vai fazer 58 anos”. Porém, pela repetição dessa “aventura para o futuro parte V” desisti de contrapor qualquer argumento. A forma pela qual devemos tratar as pessoas também deturpam o tempo. Um exemplo? Lá vai:

Porque tenho que chamar de “menina” uma mulher de 53 anos que certamente foi uma das primeiras a ler a tradução portuguesa do Kama Sutra?

Uma outra vertente é dada por aquela pessoa que acredita ser o centro do tempo (desculpas Einstein), lá vai mais uma demonstração:

“Boa tarde.”

“Ainda não é boa tarde pois não almocei.”

Esqueçam a gravidade, a teoria das cordas, a matéria escura, para essas pessoas o Universo é regido pelo roncar da sua barriga (não é um argumento visceral). Somos culpados de tratarmos o tempo com a marca da imprecisão. Não é verdade que marcamos encontros para “oito e pico”? Qual “pico”? É um sutil teste de geografia? Responda o Kilimanjaro fica na…

Não sentimos, por vezes, o tempo a passar mas ele nos atravessa tal qual os raios infravermelhos que não vemos, mas que nos dão a sensação térmica na nossa pele. O momento típico de sentir, na pele, o tempo é como na situação abaixo referida: tu entras numa loja, observas à volta, os teus olhos pousam na bonita rapariga atrás do segundo balcão, partes resoluto, frente a frente ela sorri (que lindo sorriso) e diz pausadamente: “o senhor deseja alguma coisa?”. É uma sensação e constatação semelhantes – penso eu – àquele acontecimento em Hiroxima. “A ficha caiu”, você é um senhor. Um otimista diria “com todos os pontos positivos que isso acarreta”. Não sei. Temo que os otimistas, em exagero, no fundo sejam mal informados.

“Ó velho tomateiro…” (observe a colocação do adjetivo) “…ainda não explicastes que jogo é esse sem prolongamento.” Chega de “conversinha”. Bem, lá vai.

O jogo é o tempo da vida que temos a viver.

Esse único tempo que temos nas mãos escolham o que vão fazer com ele: vê-lo passar diante dos vossos olhos, lamentar o que não aconteceu, chorar pelo adeus da morena… Um sábio disse uma vez que só temos o tempo presente. O passado é o presente que já foi, o futuro é o presente que será. Podemos fazer com o tempo umas coisas muito interessantes. Podemos repartir o tempo com a família, os amigos ou com a parceira amada. Podemos também dar o tempo. O choro de criança que vem do quarto é prova disso. Podemos, até, ver o tempo que já passou ao contemplar um céu estrelado.

Os grandes Tomateiros Romanos (tem que possuir tomates para construir um império) cunharam uma expressão que nos abrirá os olhos: Carpe diem. Para que não haja confusões com o termo latino, a ideia e a tradução é a seguinte: Colha o dia, saboreie bem o presente, mas não deves recusar toda e qualquer disciplina na vida. Porque isso afinal? Porque, a bem da verdade, o futuro é incerto e tudo é destinado a desaparecer. Ou dito de outra forma, e já terminando: voltaremos de onde viemos, do pó das estrelas.

Teriamos em mãos: um misto de prazer, responsabilidade e reverência do Senhor Tempo que passa e passará. A próxima colheita de tomates avizinha-se.

Profundas saudações tomateiras!

O convidado Tomate de São Gonçalo do Amarante (Rio de Janeiro)

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