Capítulo Décimo– O Padrinho de Marinadela

     Era uma vez uma terra no centro da Andaluzia plantada. Essa terra tomava o nome de Marinadela e aqui todos eram felizes. Nela todos tinham emprego, trabalhavam na cooperativa agrícola da zona, muito à imagem dos sete anões e da sua exploração mineira. O seu salário chorudo ascendia aos mil e duzentos euros mensais, e lá ninguém passava fome. Quando alguém estava no limiar da pobreza, o seu presidente vinha em seu auxílio e assaltava supermercados para lhes dar comida, qual Robin dos Bosques. Aliás, este foi o único crime registado na cidade desde o tempo do avô do Robin, 1979. Nesta cidade ninguém morava debaixo da ponte, todos tinham casa, e aos que não tinham, a câmara oferecia os materiais para tal. E mais, depois de construída, ainda oferecia um subsídio de 195€ por metro quadrado de construção. Esta história não será sobre a bela vida de Marinadela nem dos seus habitantes, esta será desenvolvida em torno do primeiro português a lá chegar, e sobre a forma de destruição da pacata vida de toda a gente.

     O João, Silva de seu pai, decide que em Portugal não se está bem e que o melhor a fazer é emigrar. Mas não para longe nem para o frio, ele quer ser emigrante mas apenas em part-time. Ao ler o jornal descobre esta maravilha andaluza e a boa vida que lá se leva. Ainda o sol não havia raiado, já ele se metera ao caminho. Chega lá de manhã cedinho, toda a gente se prepara para ir para a cooperativa mas o João sentia-se cansado e foi para o café. Sentiu-se triste, ninguém queria jogar às cartas. Quando o Senhor Gómez, taberneiro de Marinadela, chega para lhe perguntar o que pretende tomar como pequeno-almoço ele pergunta se pode tomar um fino, que panados já trouxe de casa. Trabalho de campo nunca o cativou, tinha problemas de costas desde pequeno, mas tinha sobretudo preguiça. Como bom português, achou que teria de arranjar forma de dar a volta ao sistema enquanto comia os pistachos que o Gómez lhe trouxe. Nunca os iria pagar, ele queria era amendoins. Qual a melhor forma de enganar estes pacóvios todos, pensou ele. Aqui não há polícia, se fizer bodega, ainda tenho algum tempo para fugir, respondeu neste monólogo a duas vozes. Sendo uma terra agrícola o melhor que teria a fazer seria monopolizar o negócio da água. Chegou à fonte e disse “é minha!”. Por mais incrível que pareça, a falta de uma autoridade conseguiu tornar a fonte da terra propriedade portuguesa, Fonte de João. Eles bem desconfiaram, mas o poder persuasivo do João suplantou as dúvidas. Com o monopólio da água e consequentemente o da cooperativa, achou que o próximo passo passaria por arranjar uma casa. Claro que eles oferecendo subsídios por metros quadrados de construção, a casa teria de ter várias divisões. A cozinha seria gigante, sala com quatro lareiras para o frio, e um jardim com três piscinas para o calor. Piscina para ele, piscina para os pés dele e piscina para o cão dele. Ainda não tinha cão, mas não tardaria em adotar um dos grandes, ele não confiava em gente estrangeira, são todos de má rés.

     Um ano se passou, o clube do seu coração foi campeão. Foi para o pé da sua fonte festejar, e com a falta de polícia não existiu nenhum tipo de desacato. E não pela falta de agressividade policial, apenas porque ele era o único a comemorar, e quando toda a gente aplaude o mesmo não há razão para problemas.

     João sentia-se o Padrinho de Marinadela. Quando alguém precisava de favores era a ela que recorriam, não pela sua influência política mas por ser despachado e desenrascado. Sempre se achou melhor que os outros, sempre soube que ao sair de Portugal para uma terra destas seria para comandar, e o último ano tinha sido incrível. Foi candidato a presidente da câmara e com os bónus que teve dos metros quadrados de piscinas conseguiu subornar os seus funcionários. Aumentou o preço da água, de borla até então, e obrigou a cooperativa a vários despedimentos. Pessoas foram obrigadas a ir viver para debaixo da ponte, as mesmas que foram obrigadas a construir a ponte para sobreviver. João tinha tudo, e os marinadelenses também, até João entrar nas suas vidas.

Tomate do Bárrio

Ó tomate, que raio de bodega é esta?

Não sei muito bem, talvez uma sátira político-sócio-económica do nosso país em forma de conto, com João Silva como uma personagem saída de qualquer povoação próxima, tudo numa só página. Acho que vou concorrer ao Pulitzer.

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