Porque as Páscoas não são todas iguais

Cumprimentos tomatianos,

E passou mais uma época festiva que tem o nome de Páscoa. Depois do Tomate do Bárrio já vos ter falado deste tema, e como sou uma pessoa maçadora, achei por bem voltar ao ataque a falar deste feriado. Muitos já se devem ter perguntado o porquê deste nome (eu perguntei-me agora mesmo e fui pesquisar), e parece que vem do latim Pascha. Curiosamente este é também o nome de um bordel na Alemanha, com nada mais nada menos que 120 prostitutas. Faz todo o sentido, os Muçulmanos têm 40 virgens para os mártires, os cristãos têm 120 senhoras (muito pouco virgens) para os que vivem possam celebrar a morte de um mártir. Veem o que aprendem comigo? Pois, nada de especial.

Bem, mas não foi para falar de bordéis nem de latim que vos apareci aqui hoje. Pois, aposto que todos vocês passaram o dia de domingo a enfardar comida, enquanto esperavam que meia dúzia de pessoas vos trouxessem uma cruz a casa para ser lambuzada por todos. Não sei se já pensaram nisso, mas se alguém na vossa freguesia tem herpes, existe uma grande possibilidade de vocês terem também. Por isso, mais importante que uma lista de violadores, era ter uma lista de pessoas com herpes das redondezas, muito mais útil, e com muito menos polémicas.

Mas nem toda a gente tem a felicidade de ter um domingo tão agradável como os dos meus queridos leitores. Aqui este tomate vem-vos contar como é uma páscoa vivida por um músico da Banda Filarmónica da Venda da Gaita (nome fictício para não sofrer consequências vindas do meio filarmónico). Antes de começar a falar do meu dia de páscoa, coisas a referir sobre bandas em geral. Não nos confundam com ranchos, nem com fanfarras. Sei que somos totós, mas isso é descer muito baixo. Para ajudar, os ranchos são aqueles em que as velhotas cantam esganiçadas e estão todos vestidos à minhota, e as fanfarras são aqueles escuteiros que tocam bombo e cornetas. Veem? Nada a ver.

Pois bem, eu neste dia acordo antes das 7 da matina para o mal dos meus pecados. “Ah, mas vês o nascer do Sol que é tão bonito” dizem vocês, mas não. Quando uma pessoa está cheia de sono, ver o sol de frente a nascer é como se tivéssemos várias agulhas minúsculas a serem espetadas contra a nossa córnea (não é uma coisa bonita). Cheio de sono lá saio de casa e apanho um bêbado durante o caminho todo (sim, um gajo que mais de metade do tempo andava na faixa contrária). Depois de mais de 20 km de estrada (porque as terras que querem bandas ficam sempre no c* de Judas), lá cheguei a Mata Porcas (desta vez não é nome fictício).

Mesmo bonito começar a tocar logo pela manhã para acordar toda a gente das redondezas. Esta parte até vou confessar que me deu um certo gozo, porque se eu tive que acordar cedo, é sempre bom obrigar pessoal a fazer o mesmo. E porque ainda há gente que se interessa pelo bem-estar dos tocadores filarmónicos, logo às 9 um restaurante da terra tem uma mesa cheia de comida para nós. Repleta de bolos, doces, pão, rissóis, croquetes, … Ainda nos oferecem um cafezinho que sabe mesmo bem, e no final de tudo, chegam panelas cheias de canja. Sim, meus amigos, que canja depois de um pequeno-almoço é aquilo que sabe mesmo bem, principalmente para o deitar todo cá para fora.

Outra parte engraçada neste dia são os foguetes. E se são daqueles que têm daquelas filosofias de “Páscoa sem foguetes não é Páscoa”, vão dar banho ao cão. Os fogueteiros, além de serem pessoas constantemente bêbadas, têm que estar sempre com um cigarro na boca quando estão com material pirotécnico nas mãos (escolha acertada para não fazer coisas explodir na altura errada). A minha teoria é simples: os fogueteiros são pessoas contratadas por um ser superior que tem como objetivo matar o pessoal das bandas. Pois, porque sempre que se ouve um foguete a rebentar todos nós sentimos o que um militar sente quando está numa trincheira. Começamos logo a olhar para cima e tentamos imaginar a complexa rota que a cana vai fazer, para ter a certeza que não nos acerta em cheio nas bentas. Pior ainda é quando isto acontece à noite. Já tentaram vislumbrar uma cana a descer pelos ares sem luz nenhuma? Não é nada fácil, mas acaba por ser engraçado ver a banda sem saber bem onde se meter, a mexer-se de um lado para o outro, a tentar fugir das canas invisíveis (como se isto enganasse a cana e fizesse com que ela não nos apanhasse). Apenas uma sugestão (e não é nada exagerada): juntar todos os fogueteiros num descampado à noite e começar a lançar canas para caírem todas no campo. Quem me apoia nesta senda?

Mas além dos horríveis foguetes, e tendo em conta que toda a vila tem festa, havia uma casa no cimo do monte onde é necessário ir. Por isso puseram a banda em duas carrinhas de caixa aberta, com alguns bancos lá dentro. Escusado será dizer que foi uma viagem atribulada. Além do calor que aumentava por causa das lonas escuras na carrinha, e porque banda que se preze anda vestida com fato a rigor, ainda nos levaram por caminhos que nem cabras usam. As inclinações que não lembram ao diabo, aliadas a condutores malucos que das duas uma, ou não tiraram a carta, ou esta saiu nos cereais; são os ingredientes perfeitos para matar uma banda inteira de uma só vez. E depois desse momento fiquei com a impressão que não são só os fogueteiros que têm ódio a bandas. Sei que fazemos barulho, mas canalizem o vosso ódio para outro lado.

Mas continuando a descrição deste dia fenomenal, e porque não vos quero maçar muito, apenas digo que se andou quase 25 km (sim, mais de uma meia-maratona), com um instrumento às costas (e na boca) até à meia-noite. Sim, porque ainda há terras que se orgulham de acabar a Páscoa a estas horas indecentes, quando pessoas normais já estão na cama ou num bar, e não a carregar uma cruz no meio da rua. Ao menos no final houve comida para todos, mas não era meia dúzia de fritos e uns bolos. Eram mesas com serviço de catering que faziam alguns casamentos sentirem-se envergonhados, num sítio aberto a toda a freguesia. Porque a crise existe, exceto quando é para fazer um banquete em honra do Senhor, Aleluia Aleluia! Mas depois de sair de Mata Porcas depois da 1 da manhã, cansado, mas com a barriga cheia, o melhor foi pensar que no dia a seguir tinha um dia de folga pela frente. Infelizmente o senhor não gosta de mim, e na minha belíssima terra, às 9 da matina havia morteiros para avisar que a música pimba ia dar durante toda a manhã. Eu até sou um gajo pacífico (normalmente), mas nesse momento apeteceu-me pegar em foguetes de cana e começar a disparar para cima dos responsáveis por perturbarem a minha paz tão merecida. Aconselho a que se torne a profissão de músico como uma profissão de risco, que claramente existe muito ódio contra nós, e não ganho para isto. Vale a pena pensar nisto senhores governantes!

E sem mais nada a tratar, e depois de ter desabafado convosco (provavelmente já ninguém chegou aqui, mas pronto), não percam a próxima semana. Prometo-vos que não falo de Bandas Filarmónicas (isso fica para o Verão).

Tomate de Fraião

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