Capítulo Primeiro – A Sombra de Évora

     Nas muitas horas que passo no carro tenho a oportunidade e felicidade de apreciar a boa música comercial que vai tocando na rádio, e também as músicas fracas que por lá passam, que até nem são poucas. Mas há um refrão que me causa um transtorno particular, pergunto-me como é possível uma pessoa com alzheimer ou princípios de demência escrever músicas. Ora vejam:

“Eu não sei o que é que te hei-de dar
Nem te sei inventar frases bonitas
Mas aprendi uma ontem, só que já me esqueci
Então, olha, só te quero a ti”

     Se algo tão bonito apareceu ontem à noite (ou de dia, não é concreto) talvez seja melhor escrever uma letra de música sobre isso “ah espera, já me esqueci. Toma lá um “então olha” e não digas que vais daqui”. Apesar de ter descoberto que esta música é uma cover, isto não invalida a doença de pegar numa letra destas. Até porque, e agora vem a parte da curiosidade, D.A.M.A. significa “Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo”. Pois é, vocês não sabiam, e agora já sabem quem precisa de aclarar a mente e pôr em perspetiva todas as escolhas de vida.

     Este problema estende-se a outra música, em que os autores têm um problema com egos, números de telefone e segredos. Num momento são os reis da terra deles, falam com Luísa, pedem-lhe o número, falam com ela e no momento seguinte não sabem o que fazer para a encontrar. Eu não sou médico, mas já ouvi falar de bipolaridade, e isto cheira-me a princípios. Não sei se existem casos relatados, mas alzheimer com bipolaridade deve dar um bom artigo/livro/filme, individualmente ou franchise, como preferirem.

“Vi-te aqui por perto e sem ser discreto perguntei-te o nome

Sorriste, e sem hesitar pedi-te o telefone

Subiste-me o ego, mas guardei segredo

E falamos por horas, Luísa

Quero-te encontrar, o que é que eu faço agora?”

 

     “Mas toda gente sabe as músicas, não podem ser assim tão más” pensaram vocês e pensaram bem. Estas músicas ficam bem no ouvido, dão para cantar, cheiram a verão. Eu gosto de popalhada, não nego, mas também gosto de meter defeitos em tudo e o sucesso disto leva-me a acreditar que existe uma compaixão pelo esquecimento. Os portugueses são esquecidos por natureza, esquecem-se de pagar a segurança social, pedir fatura, onde arranjam vinte milhões de euros. Coisas do dia-a-dia de um português comum, sobretudo aqueles que migram para Évora. Migram? Agora estou com dúvidas, no caso do Sócrates, é migrar ou imigrar? Ora bem, ele emigrou para Paris, viveu à grande e à francesa por lá, imigrou para o aeroporto de Lisboa e depois migrou para Évora. E agora vai migrando entre Évora e Lisboa. Sim, assim é mais preciso. E os portugueses peregrinos que migram para Évora também? Os que vão em excursão para visitar a cadeia e que fazem vigílias lá na porta. E hinos? Isso vai ter de ficar para uma das próximas semanas. Ou é acreditar no coelho da Páscoa, que em vez de trazer ovos traz apartamentos em Paris, ou bondade pela desgraça alheia ou gostar de sodomia, daquela forte e à bruta, como as cinquenta sombras do senhor cinzento.

     Ai o senhor cinzento, um livro sobre fatos de cabedal e bolas chinesas que vendeu quatrocentas mil unidades dos três exemplares e que teve trezentos e noventa e um mil espectadores em três semanas de exibição, estes números apenas em Portugal. E podem vir para aqui os compradores destes livros dizer “ah e tal, que números tão aproximados, aposto que inventaste” e eu digo “podia ter inventado e vocês comiam à mesma, mas não, estavam em sites que verifiquei uma vez, são quase fontes seguras”. Só estou a falar disto porque me causa comichão no céu-da-boca o facto de sempre que se pergunta a alguém se vê pornografia (é uma pergunta aceitável entre amigos, não no primeiro encontro) a resposta é sempre a mesma, sim e não, sim para os homens e não para as mulheres. Mas se a pornografia for escrita já não tem mal nenhum, e aproveitamos e gastamos cinco euros e vemos no cinema, se tiverem o cartão da NOS, senão são sete paus. Por sete paus comprem é um livro do Saramago, também tem sexo e não tem vírgulas.

     E podem ver pornografia, que uma vez não são vezes e eu não digo a ninguém.

Tomate do Bárrio

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